8# ARTES E ESPETCULOS 11.12.13

     8#1 LIVROS  AS FERRAMENTAS DA CIVILIZAO
     8#2 LIVROS  O ACORDE DISSONANTE
     8#3 LIVROS  ALVIOS PROGRESSISTAS
     8#4 LIVROS  EU J SUPEREI O NARCISISMO
     8#5 CINEMA  A EDUCAO SENTIMENTAL
     8#6 CINEMA  SINAL TROCADO
     8#7 VEJA RECOMENDA
     8#8 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#9 J.R. GUZZO  CONVERSA VENCIDA

8#1 LIVROS  AS FERRAMENTAS DA CIVILIZAO
Um livro de um dos museus mais tradicionais do mundo, o British Museum, retrata a histria da humanidade por meio de 100 objetos de seu acervo  fabricados ao longo de 2 milhes de anos.
FILIPE VILICIC

     Caminhar pelo British Museum (o museu britnico), em Londres,  vislumbrar a histria da humanidade. Os 8 milhes de objetos l guardados, vistos por 6 milhes de visitantes todos os anos, retratam o progresso da civilizao desde seu incio. Nas palavras do diretor do museu, o historiador ingls Neil MacGregor: "Viajamos de volta no tempo e cruzamos o globo terrestre para ver como ns, seres humanos, moldamos o mundo e fomos moldados por ele nos ltimos 2 milhes de anos". A frase apresenta A Histria do Mundo em 100 Objetos (Intrnseca; 784 pginas; 69,90 reais, ou 44,90 na verso eletrnica), programa da Rdio 4, da BBC, transformado num livro de acabamento impecvel, traduzido no Brasil trs anos aps seu lanamento na Inglaterra. Mas se encaixa perfeitamente para descrever tambm o sentido primrio de um museu e o esprito explorador do homem. Somos seres fascinados pelo passado, que encaram cavernas tenebrosas e escavam cidades inteiras em busca de objetos ancestrais que nos ajudem a compreender os pilares nos quais se firma a sociedade  e, no processo, entender algo mais sobre nossa prpria existncia.
     Noventa e cinco por cento da histria humana no est registrada em livro. O motivo: s cunhamos a escrita por volta do ano 3500 antes de Cristo. Tratava-se de uma inovao to avanada que o pensador grego Plato decretou, preocupado, no sculo IV antes de Cristo: "Esta inveno vai produzir esquecimento na conscincia daqueles que aprenderem a us-la, porque estes deixaro de treinar a memria".  notvel reparar que seu discurso ficou guardado para a histria justamente por ter sido escrito. Mas como sabemos o que ocorreu nos milhes de anos em que os homens se comunicaram entre si antes dessa revolucionria inveno?  preciso olhar cuidadosamente para o que criamos, as ferramentas, as obras de arte, os objetos que se tornaram tijolos com os quais erguemos aldeias, vilas e cidades.  a isso que se props MacGregor ao organizar o livro do British Museum, o primeiro museu nacional aberto ao pblico, fundado em 1753: tecer uma biografia das coisas. 
     O objeto mais antigo da seleo, fabricado por ancestrais de humanos que pouco se assemelhavam ao homem moderno, se parece com uma pedra comum.  to rudimentar que muitos passam batido pela ferramenta de corte de Olduvai, parte do acervo  assim como todos os objetos do livro  do museu britnico. Descoberta nos anos 1930 pelo ingls Louis Leakey, clebre nome da arqueologia, em um desfiladeiro no norte da Tanznia, ela foi talhada para cortar carne e quebrar ossos de animais mortos achados na savana. Leakey ainda escavou, na mesma regio, uma srie de utenslios, como machadinhas. Foi graas a essas primeiras ferramentas que nos distinguimos dos outros animais na batalha por alimento  uma vantagem que garantiu uma dieta rica em protena, essencial para nutrir um crebro cada vez maior, aprimorar nossa inteligncia e, em ltima anlise, ganhar tempo para nos dedicarmos a atividades como a filosofia e a arte. 
     Durante a ltima era glacial, h cerca de 40.000 anos, houve um salto na produo de ferramentas e na adorao a divindades. O que, em conjunto, motivou a criao das primeiras obras de arte representativas. Aqueles que sobreviveram s dificuldades do perodo de frio extremo aproveitaram o que viria pela frente: uma fase de fartura. Um pilo em forma de pssaro fabricado entre os anos 6000 e 2000 a.C. simboliza a ascenso da agricultura e da pecuria. 
     H algo comum aos objetos escolhidos com o auxlio de uma centena de curadores: eles mostram que as preocupaes e os desejos do homem so constantes que atravessam os sculos. O pilo, assim como a ferramenta de corte, representa a batalha pelo sustento. A fixao pelas relaes amorosas motiva desde uma escultura lapidada h 11.000 anos at uma taa de vinho na qual artesos romanos desenharam cenas de paixo homossexual. Guerras, crenas, a busca por status e a necessidade de se aventurar em direo ao desconhecido so outros temas recorrentes  os elementos, enfim, com os quais construmos o sentido que damos a ser humano. Os objetos por vezes ainda revelam quo pouco sabemos sobre ns. A descoberta da ferramenta de corte de Olduvai destruiu uma teoria  formulada pelo arcebispo irlands Ussher de Armagh, por muito tempo aceita como definitiva pela cristandade. Em 1650, Ussher calculou, somando idades de descendentes de Ado e Eva, que o primeiro casal teria nascido em 4004 a.C. Uma ideia insustentvel diante da descoberta de um objeto criado milhes de anos antes. 
     O item mais popular do acervo do museu, a Pedra de Roseta, ilustra o porqu de admirar artefatos fabricados h milnios. Trata-se de um bloco cinzento que,  primeira vista, nada tem de fascinante. Mas h quatro lnguas gravadas nele: grego clssico, duas formas de egpcio antigo (uma composta de hierglifos eclesisticos) e ingls (registrado aps a tomada da relquia, que antes fora dos franceses, por tropas inglesas). Nessa tbua, criada em 196 a.C, era relatada uma srie de concesses tributrias. Uma leitura tediosa, mas por 2000 anos eruditos de todo o mundo disputaram para tentar decifrar o trecho dos hierglifos, ento um mistrio. A fixao rendeu resultados em 1822, quando o linguista francs Jean-Franois Champollion cumpriu a tarefa. Valeu a pena: a traduo serviu de base para decifrar palavras registradas pelos antigos egpcios em esttuas, mmias e papiros. O esforo de milnios admirando um objeto ancestral revelou a histria de um povo. Conclui MacGregor, no livro: "Objetos foram feitos necessariamente por pessoas iguais a ns na essncia  portanto deveramos ser capazes de desvendar por que o fizeram e para que serviam. Essa pode ser a melhor maneira de compreender o mundo, no s no passado, mas na nossa prpria poca". 

Moeda de ouro de Creso (acima), cdula Ming ( dir.) e carto de crdito
Data de fabricao: sculo VI a.C., sculo XV e 2009
Onde foram feitos: Turquia, China e Emirados rabes
A evoluo de como a civilizao organiza suas finanas  um dos temas centrais do livro. A moeda ldia  uma das primeiras peas do gnero e marcou a transio de economias baseadas no escambo e no pagamento por meio de metais para um sistema financeiro ordenado. O papel-moeda chins estabeleceu uma ferramenta essencial para a manuteno do Estado moderno. J o carto de crdito, criado por americanos na dcada de 50,  o dinheiro supranacional, que impulsionou a globalizao. 

Miniatura de gado de barro
Data de fabricao: 3500 a.C.
Onde foi feita: Egito
Criada h 5500 anos, a pea simboliza a ascenso de comunidades agrcolas ao longo do Vale do Nilo - e tambm as que se espalhavam por todo o mundo habitado. A importncia das vacas domesticadas era tamanha para a sociedade que essa miniatura foi enterrada com seu dono para que, seguindo as tradies locais, ele a levasse como uma ajuda bem-vinda para o que viesse aps a morte. 

Taa de Warren
Data de fabricao: ano 10
Onde foi feita: Palestina
As imagens dessa sofisticada taa de prata de vinho, que certamente pertenceu a um membro da elite do Imprio Romano, exibem cenas de sexo entre homens adultos e adolescentes. Selecionada para mostrar que os prazeres mundanos sempre foram os mesmos e por ser uma prova histrica de que romanos (e gregos, antes deles) aceitavam a homossexualidade e a luxria entre as castas mais altas da sociedade.

Cronmetro martimo do HMS Beagle
Data de fabricao: entre 1800 e 1850
Onde foi feito: Inglaterra
Foi um dos 22 cronometras a bordo do HMS Beagle, navio que levou Charles Darwin em sua viagem pela Amrica do Sul e pelas Ilhas Galpagos. Est ligado a dois fatos histricos que mudaram a viso que a humanidade tem de si: o primeiro registro de longitudes ao redor do mundo, tendo o meridiano de Greenwich como referncia (o que posteriormente virou padro internacional para a medio de horas), e a formulao da teoria da evoluo, base da biologia moderna.

Esttua hoa Hakananaia
Data de fabricao: entre 1000 e 1200
Onde foi feita: Ilha de Pscoa
Uma das 1000 esculturas de pedra, que superam 3 metros de altura, criadas por polinsios que colonizaram Pscoa a partir do sculo VIII. Representa duas fortes caractersticas da humanidade: a religiosidade - acreditava-se que as esttuas abrigavam espritos - e o apetite por explorar o mundo, j que foi construda na ilha mais remota do planeta e tambm um dos ltimos lugares a receber habitao permanente.

Peas de xadrez de Lewis
Data de fabricao: entre 1150 e 1200
Onde foram feitas: Noruega
Como o xadrez se adaptava s culturas locais, as 78 peas revelam como era a vida na Idade Mdia: pees so retratados como lpides iguais, o que reflete o desprezo com que nobres encaravam camponeses recrutados para as guerras; membros da elite viraram miniaturas detalhadas, como o rei sentado num trono com sua espada; no lugar das torres, berserkers, soldados frenticos que eram emblema da extrema violncia das guerras escandinavas.


8#2 LIVROS  O ACORDE DISSONANTE
Como Fernando Henrique, o candidato que tinha tudo para dar errado, virou o presidente certo na hora mais incerta.
AUGUSTO NUNES

     O socilogo convertido em poltico aos 48 anos tinha tudo para dar errado como candidato a qualquer coisa. Tal suspeita vira certeza com a leitura das revelaes de Fernando Henrique Cardoso no livro escrito em parceria com o jornalista americano Brian Winter. A verso em portugus de O Improvvel Presidente do Brasil (Civilizao Brasileira: 368 pginas; 35 reais) justifica o ttulo com a exposio de traos de temperamento, marcas de nascena, heranas genticas e outras particularidades que, se favoreceram a trajetria vitoriosa do professor admirado em muitos sotaques, pareciam condenar ao fiasco o poltico aprendiz. E reafirma que a chegada de FHC ao Palcio do Planalto em 1994 foi muito mais surpreendente que o triunfo de Lula ou sua substituio por Dilma Rousseff. 
     O grande viveiro de cabeas baldias tem tudo a ver com o ex-operrio sem compromisso com a verdade (e o plural) ou com a mulher que fala dilms (e no diz coisa com coisa). Assombrosa, portanto,  a constatao de que um intelectual puro-sangue foi autorizado pelo voto a reinar, durante oito anos, num pas em que a palavra elite deixou de designar o que h de melhor num grupo social para tornar-se estigma. Foi Fernando Henrique o acorde dissonante na pera do absurdo composta pelos que o antecederam e retomada por seus sucessores. Vistos de perto, os presidentes brasileiros exibem muito mais semelhanas que diferenas. Se estivessem vivos, todos seriam parceiros na base aliada. Menos Fernando Henrique Cardoso, informam os paradoxos que fizeram dele uma figura sem similares. 
     No pas do futebol e do Carnaval, ele jamais calou um par de chuteiras e no vestiu fantasias nem mesmo quando criana. Na terra dos extrovertidos patolgicos, que na campanha se engalfinham com um eleitor desconhecido a cada metro e derramam lgrimas de esguicho na vitria ou na derrota, ele nunca foi alm de tapinhas nas costas e chorou menos que Clint Eastwood. No Brasil dos analfabetos sem cura, que instalam e mantm no poder populistas iletrados, dedicou a maior parte da vida a ensinar, pesquisar, ler, escrever e, sobretudo, pensar. "Como poderia um professor de sociologia, paulista (embora nascido no Rio), 'elitista', 'sem carisma' e 'arrogante' derrotar um homem como Lula'?", perguntava-se. 
     Um marqueteiro da tribo de Duda Mendona trataria de reconstru-lo dos cabelos (sempre com cada fio em seu lugar) aos sapatos (muitos de cromo alemo). Em junho de 1994, com o candidato j em campanha pela Presidncia, publicitrios amigos tentaram aproxim-lo do que chamavam de "povo" com mudanas menos radicais. "Decidiu-se que eu devia aparecer mais em mangas de camisa e tentar mostrar mais senso de humor", exemplifica. "Especulava-se tambm que talvez eu precisasse de um apelido. Algum sugeriu 'FHC', mas conclumos que era muito parecido com DDT. Acabamos ficando mesmo com Fernando Henrique." Com anmicos 19% nas pesquisas que mantinham Lula acima de 40%, pensou em desistir. No podia imaginar que derrotaria duas vezes, ambas no primeiro turno, o adversrio invencvel. Muito menos que FHC seria, ao lado de JK, uma das duas nicas siglas tombadas pelo patrimnio poltico nacional. 
     "Sempre tive muita sorte", reconhece o beneficirio de uma extraordinria soma de acasos, ventos favorveis, coincidncias intrigantes e talento de sobra. Feliz com a vida de chanceler, foi surpreendido pelo presidente Itamar Franco com o convite para assumir o Ministrio da Fazenda. Nunca entendeu as razes da escolha de um socilogo sem intimidade com assuntos econmicos para domar a hiperinflao. Repassou a tarefa a uma equipe de especialistas que montaram o Plano Real com o expurgo dos erros que haviam cometido no Plano Cruzado. "Fui eleito pela economia", reconhece Fernando Henrique no captulo que narra a mais espetacular virada eleitoral desde a redemocratizao do pas. Mas foi reeleito por milhes de brasileiros convencidos de que a estabilidade da moeda fora apenas a maior e mais improvvel proeza do presidente. H muitas outras no livro, que  uma espcie de "Fernando Henrique Cardoso para Estrangeiros". No h nada que lembre a densidade informativa e a profundidade analtica do essencial A Arte da Poltica, coordenado pelo jornalista Ricardo Setti  hoje colunista de VEJA.com. "Mas nunca me referi de modo to pessoal a certos acontecimentos'", avisa FHC. " mais fcil, s vezes, entrar em pormenores pessoais conversando em outro idioma." As revelaes em ingls permitem conhecer melhor alguns interiores, at agora indevassados, do homem que mudou a histria de um pas que pedia socorro em portugus. 


8#3 LIVROS  ALVIOS PROGRESSISTAS
Prmio Nobel deste ano, a canadense Alice Munro faz uma literatura competente mas autocomplacente.

     No tempo em que ainda se fazia publicidade de cigarro, havia uma marca americana que tentava se associar  liberao feminina. Seus anncios costumavam contrastar a imagem de uma fumante moderna  foto spia de uma mulher vitoriana, oprimida e espartilhada. O slogan era "You've come a long way, baby", que se pode traduzir como "Voc progrediu muito, garota". O mesmo mote anima Vida Querida (traduo de Caetano W. Galindo; Companhia das Letras; 316 pginas; 37 reais, ou 26 reais na verso eletrnica), o mais recente ttulo de Alice Munro, Nobel de Literatura deste ano. Em Que Chegue ao Japo, conto que abre o livro, a histria se passa em um tempo no qual "feminismo no era nem uma palavra que as pessoas usavam". Vale como moldura para os dez contos, grande parte deles ambientada entre os anos 1940 e 1960, e os quatro ensaios memorialsticos nos quais Alice, de 82 anos, fala de sua infncia em uma comunidade semirrural na provncia de Ontrio, no Canad. Todas as narrativas convidam o leitor a contemplar neuroses e represses do passado recente da confortvel posio de quem j as superou. No h aqui nenhum elemento que possa ofender uma personalidade conservadora (a ridicularizao a que o mdico machista de Recanto  submetido resulta, afinal, mansa), mas o livro destina-se sobretudo a certa sensibilidade contempornea que, com inabalvel autocomplacncia, gosta de se imaginar "progressista". 
     No se est dizendo que Alice Munro  m escritora. Embora exagere no recurso a encontros casuais como motor da ao, ela sabe conduzir a narrativa at os momentos tensos, e sua habilidade para delinear personagens  em traos rpidos e vigorosos faz com que merea a frequente comparao com o russo Anton Tchekov.  no cotejo com uma contista que lhe  espiritual e geograficamente mais prxima que se revela a timidez de Alice Munro: a americana Flannery O'Connor, em seu retrato cru e cruel do sul de seu pas, abre alapes que a canadense prefere esconder sob o tapete. Nos textos autobiogrficos, por exemplo, o ressentimento de Alice em relao ao irmo mais novo  sugerido mas no explorado. O conto Cascalho, cuja devastadora tragdia infantil pe em cena as contradies das mudanas comportamentais dos anos 1970,  o nico que escapa  autocomplacncia. De resto, Vida Querida  fico para ser adotada em cursos de "Estudos Femininos" nas universidades americanas  nas quais hoje pouca gente fuma. 
JERNIMO TEIXEIRA


8#4 LIVROS  EU J SUPEREI O NARCISISMO
Entrar num lugar com Luiza Brunet  como ver a luz ser capturada por um fenmeno csmico. As mulheres operam uma espcie de scanner no corpo de 1,76 metro, fora o salto: olham o sapato, a roupa e fazem comparaes mentais. Os homens do risadinhas descontroladas. Aos 51 anos, Luiza continua a ser um desfile na avenida  embora tenha sado dela. Tambm  uma mulher ntegra, que fala objetivamente sobre o passado de pobreza e at de abusos. Mas no  perfeita: fuma e bebe um pouquinho. Ao fim desta entrevista, foi parada em uma blitz da Lei Seca. Tinha tomado cerveja, no fez o teste e pediu a um motorista do Copacabana Palace para lev-la em casa. Diante dela, que perguntava quanto custaria a tarefa, o motorista levou as mos  cabea: "Pelo amor de Deus, como  que vou cobrar da senhora?". No prefcio da biografia Luiza Brunet (escrita por Laura Malin; Primeira Pessoa; 288 pginas; 39,90 reais), Fernando Henrique Cardoso diz: "Podem ler Luiza Brunet. Vale a pena". Confiram a seguir.
JULIANA LINHARES

No livro, a senhora revela uma infncia muito pobre e um histrico de violncia domstica. Como essas experincias ecoam hoje? 
Acho que sou uma mulher pouco doce, com atitudes masculinizadas. Estou tentando ficar mais flexvel. Ns ramos seis irmos e morvamos em uma casa de pau a pique, escondida entre cafezais, onde hoje  Mato Grosso do Sul. Nossa casa no tinha banheiro, s o que chamamos de casinha, sem sanitrio. Fome eu no passei, porque tnhamos roa de milho, de feijo e dava para caar. Nosso caf da manh era ovo cru, batido com acar e farinha, servido num prato que parecia um penico. Como eram muitas crianas juntas, ns no sentamos a pobreza em suas facetas mais sofridas, era tudo meio brincadeira. A parte ruim era o alcoolismo do meu pai. Quando estava sbrio, era muito afetuoso, mas, quando bebia, ficava violento. Por anos, ele agrediu minha me. Na primeira vez que tentou mat-la, eu tinha 10 anos. Eles brigaram e, com um faco, ele correu atrs dela. Minha me se escondeu na plantao de mandioca e passou dois dias l. Eu me lembro do colcho deles, feito de folha de bananeira, com o buraco, aberto com o faco. 

Como foi a experincia de ter comeado a trabalhar com 12 anos? 
Pior do que a vida na roa. Meus pais foram morar em um barraco, no Rio de Janeiro, e decidiram que as filhas tinham de trabalhar. Cada uma foi empregada em uma casa de famlia. Eu cuidava da limpeza, da comida e de dois menininhos. Mas a minha patroa era muito generosa. Segurou a minha mo, assim que me viu, e disse para eu no me assustar. Eu dormia num colchonete e tinha a roupa do corpo e mais umas camisetinhas de propaganda poltica. Minha patroa me ensinou a usar condicionador, me deu batom e uns vestidos dela. 

Uma menina desamparada e linda. Sofreu com isso? 
Com 14 anos, eu j tinha 1,76 metro e curvas acentuadas. Chamava ateno. Um vizinho de uns 60 anos dessa casa onde eu trabalhava foi um dia at l. Ele me empurrou contra a parede, tinha um cheiro horrvel na boca. Levantou minha blusa e apertou meu corpo, arfando, foi horrvel. Isso passou a acontecer todo dia. Eu o ouvia se aproximando e me escondia embaixo da cama da patroa. Ele ficava gritando do lado de fora, esmurrando a porta. Houve tambm um chefe que sempre esbarrava nos meus seios. Vinha cheirar meu pescoo. Essas histrias so tristes, mas eu no sou marcada, de maneira incurvel, por elas. Tudo isso aconteceu, faz parte da minha vida, mas  s isso: uma parte da vida, e no o mais importante dela. Resolvi contar porque  uma forma de expurgo, de limpeza. E acho que posso ajudar alguns pais a prestar ateno aos sinais dos filhos. 

Sua carreira foi construda em cima da sensualidade. Algum arrependimento? 
No. Sempre tive uma relao boa com o corpo, porque fui criada de calcinha, com minhas irms, no meio do mato. Quando comecei, tinha 17 anos, era emancipada e fazia essas fotos curtindo, no tinha sofrimento. Minha primeira PLAYBOY foi com essa idade. Esse desprendimento com o corpo j rendeu histrias engraadas. Eu ia muito a Bzios e l fazia topless. Um dia, estava sem a parte de cima do biquni, lavando a canga no tanque, quando aconteceu uma cena surreal. Um amigo meu entrou na lavanderia, porque queria me apresentar, simplesmente, a Jos Sarney. Na hora, eu me cobri com a canga, rindo do constrangimento. Sarney, que tinha acabado de sair da Presidncia, e meu amigo tambm riram, descontraram-se e fizemos as apresentaes. 

Falando em ex-presidentes, circularam boatos sobre um relacionamento seu com Fernando Henrique Cardoso. Existiu isso? 
No. Muitos anos atrs, eu me filiei ao PSDB porque queria ser prefeita de Bzios e, acho, o boato partiu da. No houve interesse de nenhuma parte, apesar de eu achar que ele  um homem extremamente charmoso, culto, descolado, inteligente. Eu o considero um homem extraordinrio. 

E os boatos em relao a Lula? 
Tambm  tudo mentira. Estive com ele duas vezes, gostei de conhec-lo, mas no sei de onde vem essa histria. Recentemente, soube que ele tinha uma secretria cujo apelido era Luiza Brunet. Se ele namorou uma Luiza Bnmet, foi ela, no eu. 

Pele? 
Eu e a Xuxa o conhecemos no mesmo dia. Estvamos fazendo uma foto com ele e, numa determinada hora, ele me perguntou: "O que voc vai fazer hoje  noite?". Respondi: "Vou para casa, cozinhar para o meu marido". Nesse dia mesmo, ele acabou se interessando pela Xuxa. Ns ramos amigas. Fazamos muitos trabalhos juntas, porque a dupla funcionava bem, amos para a casa dela, tomar sol na laje. Para que no ficssemos com marca de biquni, o que atrapalharia as fotos de lingerie, tomvamos sol peladas. E, de vez em quando, tinha gente que ficava na janelinha olhando, claro. 

Olhando de perto, d para ver alguns sinais de vitiligo, escondidos sob a maquiagem.  difcil assumir as manchas? 
Muito. Passo base escura nas mos, nos cotovelos, nos joelhos e em alguns pontinhos do rosto. Quando era criana, meus irmos me chamavam de "Mortadela" por causa da doena. Quero me libertar disso. Talvez comece a suavizar a maquiagem. 

Hoje, a senhora namora o empresrio Lrio Parisotto, que tem uma fortuna calculada em 2,4 bilhes de dlares. Quando a beleza cruza com a riqueza, surgem insinuaes maldosas. Aconteceu isso no seu caso? 
No sei. O que interessa  que Lrio me d o que quero, uma relao estvel, com fidelidade e honestidade. No procuro uma montanha-russa de emoes. Quero abrir um vinho, curtir minha casa, ouvir uma msica gostosa com ele. 

E, se quiser, pode parar de trabalhar? 
Sim. Minha maior fonte de renda  uma linha de beleza que leva meu nome.  um negcio timo, que anda sozinho. Mas tambm posso continuar a trabalhar e ganhar dinheiro com minha imagem. No tomo sol, para no envelhecer a pele, e fao ginstica. Fiz uma plstica nas plpebras, diminu duas vezes o silicone e fao Botox. Como pouco e queimo muita caloria fazendo faxina. 

Faxina? 
Nada me relaxa mais do que passar pano na casa. Adoro limpar armrio e arrumar cozinha. 

A senhora desfilou por 25 anos no Carnaval carioca. Parou porque no foi mais convidada? 
No. At hoje recebo convites. Parei porque, aos 51 anos, no preciso mais desse exerccio de narcisismo, de ficar me requebrando na avenida, pedindo o aplauso do pblico. Eu exerci o exibicionismo a vida inteira. J estou confortvel em relao a isso. Mas, quando me olho nua no espelho, digo: "Ainda estou com o corpo legal". Na real? Est timo. 


8#5 CINEMA  A EDUCAO SENTIMENTAL
Entre o choque e a delicadeza, Azul  a Cor Mais Quente celebra o amor, a vida e os seus acidentes de percurso.
MRIO MENDES

     Vencedor da Palma de Ouro na edio deste ano do Festival de Cannes, Azul  a Cor Mais Quente (La Vie d'Adle. Frana/ Blgica/Espanha, 2013), em cartaz no pas desde sexta-feira, foi inicialmente muito mais falado por seu carter de succs de scandale do que pelo prmio recebido. Realmente, o filme dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche possui o ingrediente explosivo que no passado fez com que ltimo Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, fosse visto e avaliado pelas razes erradas: o tratamento dado s cenas de sexo  franco, bastante grfico e no deixa muito para a imaginao da plateia. Mas, assim como a obra de Bertolucci no era sobre as perverses praticadas por um cinquento e uma garota de 19 anos, o filme de Kechiche no  uma ode ao amor ertico entre duas mulheres. Sim, aquela to comentada cena dura cerca de nove minutos  e levou dez dias para ser gravada , mas a projeo tem outros 170. Como mostrou em seu filme anterior, Vnus Negra, o diretor gosta de contar suas histrias com vagar. 
     Livremente baseado no romance em quadrinhos de Julie Maroh (que foi sucesso na Frana h trs anos e acaba de ser lanado no Brasil pela Martins Fontes), Azul  a Cor Mais Quente trata da jovem estudante de literatura Adle (Adle Exarchopoulos), que leva uma vida sem maiores emoes com os pais na cidade de Lille. Enquanto mergulha na leitura de romances do sculo XVIII e discute tons de esmalte com as amigas, ela comea um desajeitado namoro com o cobiado Thomas (Jeremie Laheurte). Mas sua vida vira mesmo de cabea para baixo quando, ao atravessar uma rua, cruza com Emma (La Seydoux), estudante de arte de curtos e revoltos cabelos azuis, mais velha, experiente e sedutora contumaz. 
     Se com Thomas ela descobre o sexo  uma experincia frustrante que pe fim ao relacionamento , com Emma vai explorar os meandros do desejo e conhecer o prazer. Como nas melhores histrias de amor  e  disso que o filme trata , tudo comea com um beijo. Como tudo costuma acontecer de fato, a relao que dura alguns anos e acompanha Adle at o incio da vida adulta sofre com altos e baixos  incluindo paixo, doura, cumplicidade, cime, crises e o inevitvel tdio do cotidiano. Kechiche utiliza planos que mostram os personagens em aes banais (esperando o nibus, dormindo) ou em numerosos close-ups (as refeies em famlia, o rosto gorducho e sonhador de Adle) para estabelecer uma cumplicidade voyeurstica com o espectador.  uma daquelas narrativas nas quais pouco acontece, mas tudo  presenciado em detalhes  emocionantes ou no. 
     Outro fator que alimentou os noticirios depois do prmio do filme em Cannes foram os rumores de que Kechiche teria estabelecido no set um relacionamento autoritrio com suas protagonistas, exigindo vrias repeties de cenas e fazendo comentrios pouco lisonjeiros sobre o desempenho delas. Os principais envolvidos desconversam. "Briguei muito para conseguir esse papel e faria tudo de novo, porque foi incrvel", declarou Adle Exarchopoulos a VEJA. O entusiasmo da atriz se justifica:  notvel a transformao da Adle do filme, de adolescente desengonada em uma mulher que tem de lidar com descobertas e perdas, e com as cicatrizes que vai adquirindo pelo caminho. E  excelente a qumica que se estabelece entre ela e a Emma exuberante e agressiva de La Seydoux. Se no ano passado Cannes premiou a melanclica e amarga crnica da perspectiva da morte em Amor, de Michael Haneke, neste ano optou pelo caminho inverso. Azul  a Cor Mais Quente mostra que a dor da desiluso  intensa e ocorre com certa frequncia  mas nem por isso algum deveria deixar de tentar outra vez.  


8#6 CINEMA  SINAL TROCADO
Peso, emprego, manias  um romance em que o secundrio ofusca o essencial.

     Massagista profissional, divorciada e me de uma adolescente prestes a sair de casa, Eva (Julia Louis-Dreyfus) certa noite vai a uma festa. No estava buscando nem uma coisa nem outra, mas sai de l com um possvel namorado e uma nova cliente. Albert (James Gandolfini), o cinquento que a convida para jantar, trabalha num museu da histria da TV, coisa que no deixa ningum rico mas que ele ama, e tem vrios quilos a mais  e tem de sobra tambm humor, delicadeza, inteligncia, emparia (sua prpria filha est para bater asas do ninho) e uma interessante compatibilidade com Eva no sexo. J a nova cliente, Marianne (Catherine Keener),  poeta, mora numa casa de excepcional bom gosto e  amiga de gente como a cantora Joni Mitchell. Eva se deslumbra com ela, e ouve com ateno o desfiar de defeitos que Marianne faz de seu ex-marido: era gordo, no tinha senso de humor, era um "perdedor" (que palavra odiosa), suas manias eram intolerveis. E ento, a certa altura, Eva se d conta de que elas esto falando da mesma pessoa: Albert  tanto  o namorado cada vez mais querido quanto o ex-marido detestado. O caso, em  Procura do Amor (Enough Said, Estados Unidos, 2013), j em cartaz no pas, : em qual verso de Albert a protagonista vai acreditar, na sua prpria ou na da ex-mulher? 
     A diretora Nicole Holofcener, de Amigas com Dinheiro e Sentimento de Culpa, transita em seus filmes pela classe mdia alta e branca de Los Angeles, uma tribo cheia de idiossincrasias (por exemplo, adorar a vida mansa e culpar-se por ela, e um jeito meio hippie de ser ultraconsumista). Aqui, contudo, ela perfura essa superfcie com mais propriedade do que em qualquer outro trabalho seu. Eva  bem-intencionada, mas sofre de uma inferioridade, ou talvez inveja, que parece inofensiva mas no : se Marianne  "melhor" do que ela, ento a opinio dela tambm deve valer mais. Consequncia: se Eva antes no via defeitos em Albert, agora eles so tudo o que ela consegue enxergar. 
     Muito do que h de cativante no filme, porm, vem de seus intrpretes. Julia Louis-Dreyfus carrega consigo tiques de atriz de sitcom, mas se expe com uma candura rara em seus seriados na TV. E Gandolfini, em seu ltimo trabalho no cinema, deixa como testamento uma vulnerabilidade grandiosa, alm do costumeiro dom para a nuance, para o gesto inesperado e para desarmar os parceiros de cena com sua honestidade. No  fcil encontrar um homem desses, pese ele o que pesar. 
ISABELA BOSCOV


8#7 VEJA RECOMENDA
CINEMA
A JAULA DE OURO (LA JAULA DE ORO, GUATEMALA/MXICO/ESPANHA, 2013. J EM CARTAZ NO PAS)
 Juan cruza as favelas de sua cidade na Guatemala at um lixo, onde vai buscar seu amigo, o catador Samuel; enquanto isso, Sara corta os cabelos e enfaixa os seios para poder se passar por menino  uma providncia que, como se ver algum tempo depois,  absolutamente necessria, embora talvez no suficiente. Juntos, os trs comeam uma longussima viagem, primeiro de barco e depois atravessando o Mxico no topo de trens de carga, em busca de uma chance de atravessar ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos. Em dado momento, junta-se a eles o ndio guatemalteco Chauk, um garoto que no fala uma palavra de espanhol e  to pobre quanto o trio, mas, ainda assim,  rejeitado por Juan, que se acredita o lder do grupo e, sobretudo,  ciumento de Sara. Desse atrito surgiro algumas das desventuras que eles enfrentaro; outras so simplesmente fruto do acaso  em especial daqueles acasos que costumam acometer os desprotegidos e miserveis. O filme do diretor espanhol Diego Quemada-Dez, porm, nada tem de novelo: , ao contrrio, seco, econmico e intransigente no retrato que faz de uma falta de perspectiva to extrema que desafiaria a imaginao.

LIVROS
GRANDE IRMO, DE LIONEL SHRIVER (TRADUO DE VERA RIBEIRO; INTRNSECA; 336 PGINAS; 29,90 REAIS, ou 19,90 REAIS NA VERSO ELETRNICA)
 Produzir quitutes literrios a partir de ingredientes indigestos  a marca da americana Lionel Shriver. Em Precisamos Falar sobre o Kevin, sua obra mais famosa, uma me narra a experincia de ver seu filho cometer um massacre. Neste novo livro, ela atinge a mesma voltagem com outro assunto incmodo: a obesidade mrbida. Na virada dos 40, Pandora leva uma vidinha tranquila com o marido e os enteados at receber um hspede inesperado  seu irmo mais velho, Edison. Msico de jazz que um dia foi bonito, ele ressurge to gordo que a protagonista no o reconhece no aeroporto. Sua presena gulosa irritar o marido de Pandora a ponto de coloc-la numa encruzilhada entre o casamento e o irmo. Decidida a evitar que Edison morra pela prpria boca, ela opta pela segunda alternativa. As reflexes sobre famlia, vcio em comida e dietas so temperadas pela verve de uma narradora que no poupa nem a si mesma. "Sou como arroz branco. Sempre existi para dar destaque a pratos mais empolgantes", autodeprecia-se Pandora.

...E DEPOIS A MALUCA SOU EU, DE MARIZA DIAS COSTA (PEIXE GRANDE; 224 PGINAS; 69 REAIS)
 Entre 1978 e 1990, a coluna Dirio da Corte, do jornal Folha de S.Paulo, assinada por Paulo Francis (1930-1997), apresentava um outro dado to fascinante e desconcertante quanto seu texto: as ilustraes em preto e branco, desenhadas em traos furiosos, que s vezes faziam referncia direta aos assuntos tratados ali ou ento os transcendiam, podendo ser cheias, ao mesmo tempo, de humor e violncia. A parceira de Francis nesse espao antolgico era a ilustradora Mariza Dias Costa, que tem pela primeira vez seus desenhos reunidos em livro. Alm dos trabalhos do Dirio, o volume traz suas colaboraes para a coluna semanal do psicanalista Contardo Calligaris e os desenhos e colagens produzidos no dia a dia e durante uma internao psiquitrica em 2011. Filha de diplomata, nascida na Guatemala e criada em cidades to diferentes quanto Bagd e Rio de Janeiro. Mariza mistura referncias da cultura pop a delrios e fantasmagorias de um universo muito particular. So imagens criadas por uma personalidade nica, que provocam reaes diversas, exceto indiferena.

DISCOS
THE WIGMORE HALL RECITAL, ANTONIO MENESES E MARIA JOO PIRES (DEUTSCHE GRAMMOPHON/ UNIVERSAL)
 Dois dos maiores solistas do mundo erudito contemporneo, o violoncelista brasileiro Antonio Meneses e a pianista portuguesa Maria Joo Pires debutaram como dupla h trs anos, quando participaram do Festival de Inverno de Campos do Jordo. Mas, pelo entrosamento mostrado nesta apresentao, gravada no ano passado no Wigmore Hall, em Londres, parece que tocam juntos desde o bero. O dedilhado delicado de Maria casa perfeitamente com o som quente do violoncelo de Meneses em obras do barroco Johann Sebastian Bach e de trs cones do perodo romntico: Franz Schubert, Johannes Brahms e Felix Mendelssohn. A Sonata para Arpeggione, de Schubert, e a Sonata para Violoncelo, de Brahms, sobressaem entre tantos momentos primorosos deste lbum: um balano perfeito entre paixo  em especial na Arpeggione, na qual o violoncelo de Meneses parece ganhar voz , virtuosismo e equilbrio. H que destacar tambm o toque claro de Maria Joo Pires nos 3 Intermezzi Op. 117, de Brahms, nica pea em que no se faz acompanhar pelo parceiro brasileiro.

NOW, THEN & FOREVER, EARTH, WIND & FIRE (SONY)
 Um dos supergrupos funk dos anos 1970, o Earth Wind & Fire hoje est reduzido ao trio Verdine White (baixo e vocais), Philip Bailey (vocais) e Ralph Johnson (percusso e vocais). A verso diet da banda, no entanto, no afetou sua criatividade nem o dom de lotar pistas de dana. Now, Then & Forever, seu primeiro lanamento em oito anos,  uma coleo bem azeitada de funks, baladas e msica brasileira com a sonoridade do perodo em que o Earth, Wind & Fire pertencia ao primeiro escalo do showbiz.  de lamentar que Maurice White, vocalista, percussionista e mentor do grupo, no integre a formao atual  diagnosticado com Parkinson, ele se afastou em 1994. Mas Daniel McClain se encarrega de interpretar as canes que lembram o estilo de Maurice, enquanto Siedah Garrett, autora de Man in the Mirror (sucesso de Michael Jackson), refora o time de compositores  ela coassina o funk My Promise, uma das melhores faixas do CD. O resto fica por conta do talento dos remanescentes, em especial o castrato soul de Bailey, sublime em Guiding Light. 


8#8 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- O Inferno. Dan Brown. ARQUEIRO
3- A Casa de Hades. Rick Riordan. INTRNSECA
4- A Esperana. Suzanne Collins. ROCCO
5- Jogos Vorazes. Suzanne Collins. ROCCO
6- Em Chamas. Suzanne Collins. ROCCO
7- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
8- O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
9- Cinquenta Tons de Cinza. E.L. James. INTRNSECA
10- A Guerra dos Tronos. George R.R, Martin. LEYA BRASIL

NO FICO
1- Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO
3- Demi Lovato - 365 Dias do Ano. Demi Lovato. BEST SELLER
4- Carlos Wizard - Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
5- 1822. Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA
6- Corta pra Mim. Marcelo Rezende. PLANETA
7- Kardec - A Biografia. Marcel Souto Maior. RECORD
8- O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO
9- 1808. Laurentino Gomes. PLANETA
10- Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- O Encontro Inesperado. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
3- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
4- O Mtodo Dukan - Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
5- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA
6- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
7- O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA
8- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
9- A Arte da Guerra. Sun Tzu. VRIAS EDITORAS
10- Pai Rico, Pai Pobre. Robert Kiyosaki e Sharon Lechter. CAMPUS


8#9 J.R. GUZZO  CONVERSA VENCIDA
     Muito pouca gente deve lembrar de alguma ocasio em que se falou tanto de dois internos do sistema penitencirio nacional como se fala agora de Jos Dirceu e Jos Genoino. Os dois magnatas estavam abaixo s de Deus, no PT   natural, assim, que sua condenao no STF por crime de corrupo tenha rendido uma montanha de assuntos para a imprensa, os cidados que se manifestam pela internet e todo brasileiro que tem, ou acha que tem, algo a comentar sobre poltica. Genoino teve ou no um comeo de infarto na priso da Papuda, em Braslia, em razo do qual foi removido para um hospital? Alis, existe mesmo isso  "comeo de infarto"? O que Jos Dirceu tem no currculo profissional que justificasse sua contratao por 20.000 reais por ms para gerir um hotel quatro-estrelas de Braslia  emprego do qual acabou desistindo? Haveria alguma relao entre o convite, necessrio para que Dirceu possa cumprir sua pena em regime semiaberto, e o dono do hotel, um ntimo amigo do governo petista e prspero beneficirio de concesses de rdio? Por que o PT chama Genoino e Dirceu de "presos polticos", mas no diz uma palavra sobre a condenao da banqueira Ktia Rabello ou de Marcos Valrio, por exemplo, que receberam penas de priso muito mais pesadas? A presidente Dilma Rousseff ficou contrariada, mesmo, com o tratamento diferenciado que os dois tm recebido na Papuda? Se Genoino  um homem inocente, por que renunciou, na semana passada, a seu mandato de deputado  estava achando que iria ser cassado pelo plenrio? 
     Muita conversa, como se v. Mas ser que valeria mesmo a pena falar tanto assim desse assunto? Parece, num exame um pouco mais atento, que se est queimando muita vela para pouco santo. Comeando por Genoino, por exemplo, logo se v que a viga mestra do debate  o fato de que ele no se beneficiou financeiramente em nada com as traficncias do mensalo   um homem honrado e no enriqueceu no governo. Estaria provada, j a, a injustia da sua condenao. Mas os usurios desse tipo de argumento se recusam a aceitar uma realidade bvia: nunca esteve em julgamento, em sete anos de processo, a integridade pessoal de Genoino. O que se julgou foi outra coisa: se ele violou ou no os artigos 288 e 333 do Cdigo Penal brasileiro, que punem os crimes de formao de quadrilha e de corrupo ativa. Da mesma forma, os movimentos pr-Genoino  e ele prprio, ao levantar o punho esquerdo para os fotgrafos no momento da priso, como se estivesse liderando um ato poltico  passaram a sustentar que o ex-lder est preso s porque foi presidente do PT.  o contrrio dos fatos: Genoino est preso porque assinou cheques que serviram de base para uma vasta operao de fraude bancria.  a sua assinatura, e de ningum mais, que est l. 
     Gasta-se muito latim, tambm, com lembranas sobre o passado do chefe petista, como se ele fosse um heri da histria brasileira recente. Mas, quando se sai da biografia e se vai ver a obra, o que aparece? Na vida como ela  aparece um cidado que achou possvel derrubar o governo do Brasil sem combinar nada com os 90 milhes de brasileiros da poca, reunindo meia dzia de seguidores mal armados, mal treinados e mal comandados num dos cantos mais remotos do territrio nacional  o fundo do Araguaia, onde se limitou, o tempo todo, a ficar fugindo da tropa, at seu grupo ser liquidado e ele prprio ser preso. O objetivo do seu movimento, para completar, era criar uma ditadura no Brasil, em substituio ao regime militar; nada mais distante da realidade do que a fantasia espalhada hoje segundo a qual Genoino foi um combatente da democracia e da liberdade no Brasil. 
     Dirceu, que tambm  discutido como um homem importantssimo, no tem valor maior. Com 67 anos de idade e uns 45 de militncia, passou a vida inteira fazendo tudo para chegar ao poder, por qualquer meio que fosse  e quando enfim chegou l, com a vitria de Lula na eleio presidencial de 2002, mal conseguiu ficar dois anos no governo. Que gnio poltico  esse? Pior: na vida real, ningum prejudicou tanto a Dirceu quanto o homem que ele tem servido h dcadas: o ex-presidente Lula, que o demitiu do seu ministrio j em 2005 e sepultou a sua carreira, sem jamais ter dito uma palavra para explicar por que fez isso. No foi o ministro Joaquim Barbosa nem a "direita" que botaram Dirceu na rua  foi Lula. Se o mensalo no existiu e Dirceu no fez nada de errado, por que o ex-presidente lhe deu esse tiro na testa? Mistrio. 
     J venceu, para Genoino e Dirceu, o prazo de validade. 


